Não podendo mudar tudo do mundo num único instante… poderemos dar pequenos passos rumo a um mundo melhor para todos
Terça-feira, 22 de Julho de 2008


Radovan Karadzic hoje e em 1995 (Reuters)

 

O antigo presidente da Sérvia, procurado por crimes de guerra, via sobre falsa identidade em Belgrado onde trabalhava numa clínica de medicinas alternativas. Usava aquando da sua captura uma longa barba branca que o tornava completamente irreconhecível. Karadzic era procurado pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) pelo seu papel no massacre de quase oito mil mulçumanos em 1995, homens e rapazes, em Srebrenica e outras atrocidades comitidas enquanto esteve no poder.

 

Esperemos que a justiça se faça e que tarde menos do que a captura.

 

publicado por M.M. às 21:11


No passado fim-de-semano os candidatos a retóricos deste país encontrarem-se em Congresso. Os benjamins dos dois grandes colocaram em cima da mesa as grandes preocupaçõs dos jovens portugueses.

 

Nada contra isso. Acho até que o activismo político era uma boa forma de dar voz aos anseios dos jovens deste país. Era porque pelos vistos já não é... Andam os jotinhas rosa a discutir os casamentos entre homesexuais, enquanto muitos jovens portugueses não têm à mesa de jantar pão para comer, muito menos vinho como fica sempre bem numa mesa portuguesa. Os jovens alaranjados pediram uma ajudinha à grande líder Manela que no seu discurso de encerramento não fez muito mais do que pequenos guinchos de quem não tem uma alternativa, muito menos um rumo para este país à beira mar plantado.

 

Nada contra isso. Só lamento que façam destas lutas bandeiras partidárias. A liberdade sexual é importante, é crucial dizem alguns, para que haja uma efectiva igualdade entre todos os cidadãos portugueses. Eu assino por baixo quando se trata de igualar os direitos de todos os cidadãos. Só não me venham dizer que ela deve ser posta à frente de outras "igualdades" bem mais gritantes.

 

Os meus queridos amigos psicólogos devem já estar a lembrar-se dessa magnifica pirâmida das necessidades do não menos brilhante Maslow. Pois é! De uma forma simples (não simplista) este senhor defende que enquanto as necessidades básicas - fisiológicas não estão satisfeitas o ser humano não se aventurará na realização das próximas necessidades até chegar ao topo da pirâmide.

 

 

De uma forma agora sim simplista esta é a minha real opinião sobre o que os jotinhas discutem nos seus maravilhosos congressos. Agora vão todos de férias! Em Setembro aguardaremos a rentrée. Enquanto estes vão de férias, nós jovens portugueses continuaremos a trabalhar. Pois, infelizmente a igualdade é só para alguns, outros se querem ter pão em cima da mesa todos os dias têm de trabalhar os mesmos dias de todo o ano, sem férias, sem uma legislação laboral realmente inclusiva que os abranja a todos. Vem-me agora à cabeça tudo o que tenho lido do movimento Ferve e toda a miséria humana com que me defronto todos os dias no caminho do trabalho! Essa miséria é bem real e afecta também - e arrisco-me a dizer - sobretudo jovens.


Sábado, 19 de Julho de 2008


 
 

 

 

Talvez não saiba, mas o óleo alimentar que já não serve para si pode ainda ajudar muita gente. Em vez de o deitar fora, entregue-o nos restaurantes aderentes para que este seja recolhido. Além de diminuir a poluição do planeta, cada litro de óleo será transformado num donativo para ajudar a AMI na luta contra a exclusão social. Dê, vai ver que não dói nada.
 
 
Para participar neste projecto da AMI:
- Junte o óleo alimentar que usa na sua cozinha numa garrafa de plástico e entregue-a quando estiver cheia num dos restaurantes aderentes. Os restaurantes estão identificados e a lista completa está disponível em
www.ami.org.pt;
- Afixe cartazes no comércio da sua localidade e distribua folhetos nas caixas de correio. Solicite materiais, enviando um e-mail para
reciclagem@ami.org.pt;

 

Mais uma excelente campanha da AMI. Informação retirado daqui.

publicado por M.M. às 22:01

Terça-feira, 15 de Julho de 2008

 

Ouvi distintamente o retinir de um contentor de água vazio no caminho pedregoso que me levava a Hai el Salam. Não olhei para trás; apenas me desloquei para a beira do caminho. O burro parou ao meu lado e uma voz convidou-me a subir para a carroça. Quem não conhece, em Nyala, a tão familiar carroça da água, que, desde manhãzinha ao pôr-do-sol, vai palmilhando ruas, caminhos e vielas na cidade e arredores?
Os meus olhos procuraram, em vão, um lugar onde me sentar. Mas não fiz disso motivo para recusar tão amável convite. Agradeci a mão do condutor que me ajudou a subir e, facilmente, ajeitei-me ao seu lado.
A carroça da água faz parte do quotidiano do Darfur. Fenómeno que se lhe possa comparar só o rakcha, triciclo motorizado com uma cobertura de lona, funcionando legalmente como meio de transporte público.
Sentado ao lado do jovem condutor, os meus olhos fixam-se na carroça, como se a vissem agora pela primeira vez. É uma caixa de folha metálica que o ferreiro transformou em contentor de água, assentando num eixo e duas rodas descartadas dos automóveis na sucata.
Naquela tarde, parece que não havia mais ninguém na rua onde a gente pusesse os olhos senão no estrangeiro sentado no topo da carroça-contentor de água. Os comentários abundaram, mas logo me habituei ao refrão:
- Maagul?! Shuf el khauaja el gharib da...! Possivel?! Não é coisa que se veja num estrangeiro!
Ao passar por casa da Farida, lá estava ela com os seus dois pequenos que a tinham chamado à porta. Deles ouvi palavras simpáticas:
- Wallahi jamil, ia abuna; queda quaiiess! Bonito de verdade, padre; assim está bem!.
De língua solta e palavra fácil, o Sabri – é este o nome do aguadeiro – não pára de falar, conversando simultaneamente comigo e os muitos amigos pelo caminho.
O animal de carga também faz parte da conversa mas, acaso não fosse pelo movimento do chicote no ar, não executaria prontamente as ordens do condutor.
- O burro vai num bailinho porque, graças a Deus, o contentor está vazio. Mas, quando está cheio, também tem força para mostrar. Ao voltarmos do poço do wadi, terás ocasião de ver que é verdade.
Outras carroças, irmãs da nossa, cruzam a passo lento e pesado. Vêm do poço do wadi, onde compraram água para mais um turno. Param à entrada desta e daquela porta, aligeirando a carga ao animal, a troco de 10 guirish por cada jerrican de água. O Sabri antecipou-se à minha pergunta e disse em forma de protesta:
- Preço demasiado barato. Além disso, o burro também não trabalha sem comer!
- Apesar de tudo, vejo que não tens urgência em mudar de emprego.
- Porque sei cativar a simpatia dos clientes. Se não fossem as gorjetas, já teria desistido.
O cruzamento à nossa frente, sem polícia nem semáforos, naquele momento, tornou-se demasiado pequeno e transformou-se enorme numa confusão. Um camião, automóveis ligeiros, carroças de cavalos, rakchas... Mas os burros com os seus contentores de água são a maioria. Está claramente visto ser eles a causa principal do engarrafamento e caos no tráfico. Os insultos enchem o ar, quase abafando o som das buzinas. Vêem-se chicotes e varapaus a querer fustigar não somente – pelo que parece – o dorso dos animais.
- Eh, Sabri, pára o animal! Vê lá onde te vais meter.
Mas o hábil condutor não necessitou da minha admonição. O asno obediente cortou à direita, na pequena e última oportunidade que lhe restou.
- Não achas que sois demasiadosos vendedores de água aqui em Nyala?
- Somos vários milhares. Há trabalho para todos e o número tende a aumentar. Desde que os Janjauids começaram os massacres nas aldeias é muito perigoso e arriscado viver fora da cidade. Mas aqui pode-se viver e trabalhar com certa segurança, mesmo que os aviões e helicópteros voem, baixinho, por cima das nossas cabeças.
- O teu nome árabe – Sabri – tem a ver com alguém que tem muita paciência, mas vejo também que a coragem é parte da tua bagagem.
- Por mais ruído e piruetas que façam no ar, o burro já se habituou. E eu também já não me assusto como antes.
Seguiram-se uns instantes de silêncio que Sabri interrompeu, com desilusão e tristeza:
- Não só não me assusto como antes mas quase não me importa saber se são aviões que vão atacar ou que vão socorrer. Às patrulhas dos soldados da paz (UNAMID) que vou encontrando no meu caminho tenho vontade de lhes gritar:
- Ide embora e não vos importeis com a paz no Darfur! Deixai cair sobre nós o destino dos muitos milhares de irmãos nossos que foram mortos nesta terra amaldiçoada!
A sua conversa continuou mas, desta vez, dirigida ao companheiro diário que puxa a carroça:
- Tu não sabes deste assunto, pois não?!.. És burro, mas vives feliz!
Depois de uma breve pausa, o meu amigo respirou fundo, olhou-me de frente e continuou no mesmo tom de desespero:
- Eu sei que a submissão a Deus é a base da nossa religião muçulmana. Porém, sinto uma revolta enorme quando recito a primeira sura do Alcorão em que louvo a grandeza de Deus Allahu Akbar, Deus é o Maior, ou simplesmente quando, na linguagem comum, agradeço com a frase típica também do sagrado Alcorão: El hamdu lillah, Graças a Deus. Acho impossível que, com tudo o que está a acontecer nesta terra do Darfur, Deus esteja do nosso lado.
Não obstante a fragilidade do momento e a delicadeza da questão para um muçulmano, ousei provocar o meu interlocutor:
- Será Deus que não está do nosso lado, ou serão os autores da guerra que não estão do lado de Deus?
Sabri não era dono de si mesmo para controlar as palavras que há pouco tinha pronunciado. Sinto o seu olhar confuso e exausto penetrar até ao fundo da minha alma. Tenho consciência da minha pobreza, mas sei que possuo um tesouro. O meu desejo e alegria é que a paz e a reconciliação que levo dentro de mim, fruto do Espírito de Jesus Cristo em quem eu creio, seja partilhado com este meu amigo sofredor.
O silêncio durou ainda alguns instantes. O animal, espontaneamente, parou. Penso no grupo de cristãos que estarão à minha espera. Mas, na presente circunstância, talvez eu seja melhor cristão se abdicar do meu apontamento para estar com Sabri.
Ele, muito agradecido, opôs-se totalmente:
- Gostaria de ir contigo até ao wadi mas, então, fica para outro dia. Obrigado pela boleia!”
- Foi bom estar contigo, khauaja, estrangeiro Desculpa lá a palavra, pois tu não és um khauaja como os outros. Sei que os cristãos te chamam abuna, mas eu não fui habituado assim. A nossa amizade não há-de ficar por aqui. Hei-de aparecer, um dia, na tua igreja, in cha Allah.
Mais uns minutos a pé e estou com o grupo dos pais dos baptizandos no centro católico de Hai el Salam.
Quando aviões e helicópteros voam baixinho, por cima das nossas cabeças, já não assustando o animal nem o seu dono...
Quando a vista e o ouvido ficam insensíveis e a pessoa se habitua à rotina da guerra...
Diz-se que o homem é um animal de hábitos. Deus nos livre de certos hábitos de consequências mortais.
Temo que muita gente aqui no Darfur se esteja a habituar à guerra. Há mortes pela espada ou catana, mortes pelo fogo, mortes pelas balas das kalashnikovs, mortos pela fome, pela tortura ou doença acelerada. Mas há outras mortes que não só a morte física. Vêem-se corpos ambulantes, mortos para uma vida digna dos humanos, aprisionados pela rede em que a guerra os deixou.
Os traumas psicológicos estão na ordem do dia. No momento em que escrevo está a decorrer um curso para animadores na sede da nossa diocese, em El Obeid. Nyala enviou três participantes que, por sua vez virão a contribuir para restabelecer, a nível local, a dignidade humana e o bem-estar psíquico das pessoas traumatizadas pela guerra.
Não era este o tema do encontro sobre o baptismo, programado para aquele dia em Hai el Salam, mas ficou a ser.
Sabri, não importa se me chamas khauaja ou abuna. O meu desejo é que encontres a paz contigo próprio; tu e tantos outros a quem a guerra apanhou nas malhas da sua rede.
Amigo simpático da carroça da água, não morreste às mãos dos Janjauid; não queiras agora ficar morto, privando-te da dignidade própria dos humanos e do teu bem-estar psíquico. A partir de hoje serás um dos beneficiários do serviço paroquial de Nyala, em favor dos traumatizados da guerra.
Fico à tua espera, como prometeste, in cha Allah!
 
Pe Feliz da Costa - Nyala - Sudão - Darfur

Pescado aqui.


Quarta-feira, 09 de Julho de 2008

Há vezes em que a misérie é apenas visível! Há outras em que ela já está tão enraizada que se torna demasiado evidente para ser ignorada!

 

Ignorar a miséria humana... Do que falamos afinal? Como será posível olhar para alguém e esquecer que é alguém como nós, nosso irmão, filho do mesmo Deus!

 

Ele entrou. Descaradamente roubou a primeira coisa que viu à frente... enfiou-a no saco vazio que trazia consigo de uma grande multinacional. Como evitar a efectivação de um roubo, sem ferir aquele ser humano que tinha à minha frente cuja vida não conheço, mas posso adivinhar a caminhada dele até hoje.

 

"Desculpa, tens de deixar cá o que tens dentro do saco!"

"Isto é meu, trouxe-o comigo"

"Desculpa eu vi-te"

"Deixa o saco isto é meu"

"Vais-me desculpar, mas não sais enquanto não me deixares o que de cá tiraste"

"Tá bem pronto eu vou lá por"

 

Ao olhar para aqueles olhos ressacados, para aquela pele queimada pelo sol, para aquele ar de 50 anos de alguém que tem pouco mais de 20... Como ignorar esse ser humano por detrás daquela capa que o próprio vício lhe impôs?

 

Ele saiu, virou costas.

 

Pensei que deveria ter-lhe dito algo, mas o quê?

 

Ele deu-me essa oportunidade! Voltou para trás e pediu-me desculpa. Disse que não andava bem. E agradeceu-me por não o ter achincalhado... Deveria tê-lo feito? Porquê? Para quê? O que ganharia?

 

Foi-se embora, apenas o olhei nos olhos e disse-lhe que estava desculpado.

 

Quando saí do trabalho ele estava à porta! Pediu-me mais uma vez desculpa.

 

Afinal o que está por detrás da miséria humana? Não são afinal seres humanos com um coração igual ao nosso, que sente! Que sofre! Que se alegra.


Sexta-feira, 04 de Julho de 2008

 

Em homenagem à figurinha mais troglódita que não conheci nos últimos tempos! Só de ouvir falar... Infelizmente não tive o prazer de um tête à tête :D

 

Cartoon aqui.

publicado por M.M. às 21:54

Quinta-feira, 03 de Julho de 2008

A quantidade de pessoas com fome em todo o Mundo aumentou 50 milhões em 2007 devido à crescente escassez de alimentos em algumas regiões, revelou hoje o director-geral da Organização para a Alimentação e Agricultura (FAO).

Este aumento do número de pessoas com fome no Mundo equivale a cinco vezes a população portuguesa e atinge valores que a FAO considera preocupantes.

 

Fonte.

publicado por M.M. às 22:57


"A quem beneficiará o fim de um sindicalismo independente e o agravamento caótico do protesto social? Exclusivamente ao Clube dos Bilionários, os 1125 indivíduos cuja riqueza é igual ao produto interno bruto dos países onde vive 59 por cento da população mundial".

Boaventura de Sousa Santos, "Visão", 03-07-2008

 

Se a (pouca) protecção que temos é pouca o que se dirá de uma protecção inexistente? Se a luta é custosa o que (nos) farão se cruzarmos os braços?

publicado por M.M. às 22:47


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