Não podendo mudar tudo do mundo num único instante… poderemos dar pequenos passos rumo a um mundo melhor para todos
Terça-feira, 27 de Outubro de 2009

 

 

Quando José Saramago decidiu espevitar o interesse pelo seu último livro afirmando que "a Bíblia é um manual de maus costumes", a minha primeira reacção - como escritor e como alguém de há muito tempo dedicado aos estudos de religião comparada - foi rir-me para comigo e murmurar "e depois?".

 (...)

Uma das mais importantes lições que retirei do estudo da história das religiões e da mitologia é que as narrativas mitológicas são - na sua maior parte - poesia e não prosa. A história de Adão e Eva é poesia. Ou será que haverá alguém que acredite que Eva foi feita de uma costela de Adão? O autor desta narrativa do Antigo Testamento está a recorrer a uma linguagem simbólica - tal como poetas muito posteriores, como Shakespeare ou Camões, recorreram à linguagem simbólica para criarem as suas obras-primas. Ou será que algum leitor de Os Lusíadas pensa que os navegadores portugueses depararam com um temível gigante chamado Adamastor nas suas viagens da época das Descobertas? Ou, quando a narrativa bíblica conta que Moisés separou as águas do Mar Vermelho no Livro do Êxodo para que o seu povo pudesse fugir do Egipto, será que alguém com mais de dez anos acredita que ele possa ter murmurado algum abracadabra hebraico e produzido tal milagre? Espero bem que não. O Antigo Testamento pode ter como referência um acontecimento histórico - a libertação do povo hebraico -, mas a linguagem utilizada é poética e simbólica. Por assim ser, está aberto a diferentes interpretações. Pode acontecer que o que aqui se pretende é falar da viagem espiritual que cada um de nós pode fazer ao longo das nossas vidas, da escravidão para a liberdade. Nesse caso, a história de Moisés será sobre a nossa aspiração - como indivíduos e como povo - à segurança, a uma vida realizada e com sentido.

Tomar à letra estas histórias é simplesmente não entender o Antigo Testamento e ignorar por completo dois mil anos da tradição poética ocidental.

(...) 

As palavras de Saramago pareceram-me ainda como o "much ado about nothing", o muito barulho para nada, com que soa qualquer coisa que nem remotamente é novidade. Há cerca de dois mil anos que os filósofos judeus vêm debatendo a brutalidade de Deus e da humanidade no Antigo Testamento, em tons bastante mais emocionados do que os usados no debate em causa.

 

Richard Zimler

 

publicado por M.M. às 19:48

Domingo, 25 de Outubro de 2009

Hoje ouvia na rádio as diferentes práticas que as pessoas adoptam no Outono! Uns adoram as castanhas, outros ainda o chazinho quente numa noite fria, há outros que gostam da chuva e de a ver cair, outros ainda de a sentir!

 

Eu gosto de tudo isso também! Mas há uma coisa que me dá especial prazer fazer no Outono! Ler! Não ler as gordas dos desportivos, nem as grosseiras páginas e páginas dos romancistas mais in do momento.... o que gosto mesmo de ler é poesia! Enrolar-me com uma manta quentinha num lugar onde possa sentir o frio do lado de lá da janela e escutar a chuva a bater contra o vidro!

 

Fui resgatar da prateleira: Folhas Caídas de Almeida Garrett. Aos anos que não lhe pegava.

 

Depois da leitura das primeiras páginas... a vontade de o ler foi estimulada pelo próprio Garrett:

«Não sei se são bons ou maus estes versos; sei que gosto mais deles do que nenhuns outros que fizesse. Porquê? É impossível dizê-lo, mas é verdade. E, como nada são por ele nem para ele, é provável que o público sinta bem diversamente do autor. Que importa? Apesar de sempre se dizer e escrever há cem mil anos o contrário, parece-me que o melhor e o mais recto juiz que pode ter um escritor é ele próprio, quando o não cega o amor-próprio. Eu sei que tenho o olhos abertos, ao menos agora.»

 

E a abrir a Advertência às derradeiras páginas de pura paixão pela escrita, ainda nos brinda com a inevitabilidade do tempo: «Antes que venha o Inverno e disperse ao vento essas folhas de poesia que por aí caíram, vamos escolher uma ou outra que valha a pena conservar, ainda que não seja senão para memória.»

Antes que venha o Inverno da vida e já não tenhamos mais tempo para deixar descansar o nosso olhar em tão bela escrita... ler parece-me uma boa ocupação para aspróximas horas!

publicado por M.M. às 20:20

Sábado, 20 de Junho de 2009

«O Velho acaricou-a, ignorando a dor do pé ferido e chorou de vergonha, sentindo-se indigno, envilecido, de modo algum vencedor daquela batalha

Com os olhos nublados de lágrimas e de chuva, empurrou o corpo do animal para a beira do rio, e as águas levaram-no pela floresta adentro, até aos territórios jamis profanados pelo homem branco, em direcção ao Amazonas, aos rápidos onde seria desfeito por punhais de pedra, para sempre a salvo das indignas alimárias.

Seguidamente, arremeçou a espingarda com fúria e viu-a mergulhar sem glória. Besta de metal indesejada por todas as criaturas.

Antonio Jose Bolivar Proano tirou a dentadura postiça, guardou-a embrulhada no lenço e, sem parar de amaldiçoar o gringo que estivera na origem da tragédia, o administrador, os garimpeiros, todos os que insultavam a virgindade da sua Amazónia, cortou com um golpe da machete um grosso ramo e, apoiando-se nele, pôs-se a andar em direcção a El Ilidio, da sua choça e dos seus romances, que falavam do amor com palavras tão bonitas que às vezes lhe faziam esquecer a barbarie humana.»

 

Excerto final de O velho que lia romances de amor, Luís Sepúlveda

 

Final de dia muito bem passado na companhia das velhas amigas letrinhas ordenadas em palavras que juntas fazem todo o sentido em frases de leitura mais ou menos fácil ou difícil. Não interessa! O importante é tê-las por companhia. Mais uma vez apaixonei-me por cada uma das palavras de Luís Sepúlveda neste livro que nos faz afastar da barbarie humana e nos leva a descansar no amor à floresta, à vida e à simplicidade desse amor.

publicado por M.M. às 00:28

Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009

 

«Os donos do capital vão estimular a classe trabalhadora a comprar bens caros, casas e tecnologia, fazendo-os dever cada vez mais, até que se torne insuportável. O débito não pago levará os bancos à falência, que terão de ser nacionalizados pelo Estado»

 

Karl Marx, O Capital (1867)


Quinta-feira, 22 de Janeiro de 2009

Soube hoje que no dia 19 de Janeiro passaram 200 anos sobre o nascimento de um grande génio que por estes dias povo-a a minha mesa de cabeceira: Edgar Allan Poe.

 

Aqui fica uma passagem do Gato Preto:

 

«E para minha queda final e irrevogável, o espírito de maldade fez a sua aparição. Deste espírito não fala a Filosofia. No entanto, não estou mais certo da existência da minha alma do que do facto de a maldade ser um dos impulsos mais primitivos do coração humano; uma dessas indivisas faculdades primárias, ou sentimentos, que deu uma direcção ao carácter do homem. Quem se não surpreendeu já uma centena de vezes comentendo uma acção néscia ou vil, pela única razão de saber que a não devia cometer? Não temos nós uma inclinação natural para violar aquilo que constitui a Lei, só porque sabemos que o é?»

 

Um génio, sem dúvida. Estas palavras são mais um belo exemplar do discorrer do seu fantástico romantismo negro.

 

Aconselho vivamente a leitura da obra de Poe.

 

Foto retirada daqui.

publicado por M.M. às 23:22

Segunda-feira, 29 de Dezembro de 2008

Imagem retirada daqui.

 

«Tu és uma gaivota. Nisso o chimpanzé tem razão, mas só nisso. Todos gostamos de ti Ditosa. E gostamos de ti porque és uma gaivota, uma linda gaivota.Não te contradissemos quando te ouvimos grasnar que és um gato, porque nos lisonjeia que queiras ser como nós; mas és diferente, e gostamos de que sejas diferente.Não pudemos ajudar a tua mãe, mas a ti sim. Protegemos-te desde que saíste da casca. Demos-te todo o nosso carinho sem nunca pensarmos fazer de ti um gato. Queremos-te gaivota. Sentimos que também gostas de nós, que somos teus amigos, a tua família, e é bom que saibas que contigo aprendemos uma coisa que nos enche de orgulho: aprendemos a apreciar, a respeitar e a gostar de um ser diferente. É muito fácil aceitar e gostar dos que são iguais a nós, mas fazê-lo com alguém diferente é muito difícil, e tu ajudaste-nos a consegui-lo. És uma gaivota e tens de seguir o teu destino de gaivota. Tens de voar. Quando o conseguires, Ditosa, garanto-te  que serás feliz, e então os teus sentimentos para connosco e os nossos para contigo serão mais intensose belos, porque será a amizade entre seres totalmente diferentes.»

 

História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar, Luís Sepúlveda

publicado por M.M. às 01:02

Terça-feira, 25 de Novembro de 2008

Passamos a vida à espera de qualquer coisa! Melhor? Pior? Cremos que caminhamos sempre para melhor, eu também, assim creio! Ou pelo menos tento crer...

 

Vídeo da rubrica "Letra Pequena" do Jornal Público.

 

À espera da nova edição e a (re)partilhar, depois de ver e ler aqui.

publicado por M.M. às 20:55

Quinta-feira, 25 de Setembro de 2008

Confesso que as minhas expectativas em relação ao rol de livros que enfiei na mochila paa estes dias de descanso me surpreenderam pela positiva...

Pessoa é sempre pessoa! Interessante ler Álvaro de Campos e num ápice passar para Alberto Caeiro! O contraste faz de Pessoa um dos meus escritores preferidos... A literatura portuguesa sem ele ficaria, com certeza, bem mais pobre.

Agustina Bessa-Luís foi uma feliz descoberta.

Eugénio de Andrade idem.

No entanto, supreendente mesmo foi ter pegado num livro que se passeava pelas estantes lá de casa há já algum tempo! Na altura comprei-o por impulso, depois li algumas críticas e pensei é melhor deixá-lo para ler numa altura onde os "animos" estejam mais calmos... Foi agora essa altura!

Portugal Hoje, o medo de existir. O título continua a parecer-me sujestivo. A leitura do livro (pelo menos até agora) faz-me lembrar um pouco a análise foulcoliana sobre a sociedade actual, juntando a isso 1984, onde o big eye controla tudo... Bom, mas adiante! Nunca tinha lido nada deste senhor, apesar da "análise" do livro parecer em algumas alturas um pouco descontextualizada ou romanciada ou até mesmo forçada... Acho que não devemos deixar de ler o livro com um sorrizinho nos lábios :D

"O riso obtido, explorando a esperteza estúpida dos outros, revela um traço típico do burgesso português: é que, para ele, há sempre um burgesso mais burgesso do que ele. "

Esta vai-me ficar!


Quarta-feira, 23 de Abril de 2008

 

 

Lembro-me perfeitamente de ser miúda e ser apresentada aos livros através da Anita e um domingo diferente! Ainda hoje guardo esse meu primeiro livro, ele é quase como mais um amigo de infância.

 

 

 

A partir daí fui sendo apresentada a outros livros! Também nunca me hei-de esquecer quando "roubei" ao meu irmão mais velho A vida de Marconi e a Menina da Cidade, lembro-me de com uns 10 anitos os ter lido aos dois quase de enfiada... É certo que não percebi metado do que li, mas ficou-me esse gosto pela leitura.

 

 

Hoje leio de tudo. Desde que seja boa literatura e bem escrita.

 

 

Neste momento tenho na minha cabeceira. Terra Sonâmbula de Mia Couto e Globalização, Democracia e Terrorismo de Eric Hobsbawm.

 

 

 

Independentemente daquilo que se lê o importante é mesmo ler.

Boas leituras para tod@s.

publicado por M.M. às 22:54


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